Milgram e a Mente Primordial:

Obediência, autoridade e a dissolução da responsabilidade
Introdução
Na década de 1960, um experimento conduzido pelo psicólogo social Stanley Milgram se tornaria um dos estudos mais inquietantes da história da psicologia: o Experimento da Obediência.
O que Milgram buscava compreender era simples, e perturbador:
até que ponto pessoas comuns obedeceriam a uma autoridade mesmo quando essa obediência causasse sofrimento a outro ser humano?
Os resultados desafiaram a crença de que atos cruéis exigem personalidades sádicas ou intenções malignas.
Ao contrário, o experimento revelou que a obediência pode emergir de forma automática quando estruturas de autoridade ativam camadas profundas da psique humana.
À luz da Teoria da Mente Primordial, o Experimento de Milgram deixa de ser lido como uma anomalia moral e passa a ser compreendido como a ativação de circuitos ancestrais moldados para a sobrevivência em contextos hierárquicos.
O experimento de Milgram: um resumo essencial
No experimento original, voluntários acreditavam participar de um estudo sobre aprendizagem e memória.
Seu papel era aplicar choques elétricos progressivamente mais intensos a outro participante sempre que este cometesse erros, embora, na realidade, nenhum choque fosse real.
O ponto central do estudo não era a dor infligida, mas a resposta do participante diante das ordens de uma figura de autoridade.
À medida que a situação avançava:
- Sinais de desconforto emocional surgiam
- Dúvidas morais eram verbalizadas
- Resistência inicial aparecia
Ainda assim, uma parcela significativa dos participantes continuava obedecendo quando instruída a fazê-lo.
Não por crueldade deliberada, mas por submissão à autoridade percebida como legítima.
A interpretação clássica: pressão social e conformidade
Tradicionalmente, os resultados do experimento são explicados por fatores como:
- Conformidade social
- Influência da autoridade
- Deslocamento de responsabilidade
- Pressão situacional
Essas leituras são corretas, mas descritivas.
Elas explicam como as pessoas obedeceram, mas não esclarecem por que a obediência foi tão profunda e recorrente.
Para isso, é necessário recorrer a um nível mais antigo da arquitetura psíquica.
A Mente Primordial: autoridade como sinal de sobrevivência
A Mente Primordial refere-se à camada neuroevolutiva da psique moldada em ambientes pré-tribais e tribais, onde:
- A autoridade organizava o grupo
- A hierarquia reduzia conflitos internos
- A obediência aumentava chances de sobrevivência
- A desobediência podia resultar em exclusão ou morte
Nesses contextos, questionar a autoridade não era um valor moral, era um risco existencial.
Assim, circuitos cerebrais ligados à submissão hierárquica foram selecionados evolutivamente não por virtude ética, mas por eficácia adaptativa.
O experimento de Milgram ativa exatamente esses circuitos.
A dissolução da responsabilidade individual
Um dos achados mais importantes do experimento não é a obediência em si, mas o fenômeno conhecido como deslocamento da responsabilidade.
Quando uma autoridade assume o controle da situação:
- A agência individual diminui
- A avaliação moral se enfraquece
- A responsabilidade é percebida como externa
À luz da Mente Primordial, isso não representa falha de caráter, mas economia psíquica adaptativa.
Em contextos ancestrais, dividir a responsabilidade com a hierarquia reduzia conflitos internos e aumentava a coesão do grupo.
No laboratório, esse mesmo mecanismo opera fora de seu contexto original.
Obediência não é passividade, é estratégia
Outro erro comum é interpretar a obediência como sinal de fraqueza ou ausência de pensamento crítico.
O Experimento de Milgram sugere algo mais inquietante:
a obediência pode ser uma estratégia automática de regulação emocional diante da autoridade.
Obedecer reduz:
- Ansiedade
- Ambiguidade moral
- Risco percebido
- Conflito interno
Ou seja, a obediência não é apenas social, é psicobiológica.
Paralelos com o mundo contemporâneo
Embora realizado em laboratório, o experimento de Milgram encontra paralelos claros em contextos atuais:
- Ambientes corporativos altamente hierarquizados
- Instituições autoritárias
- Estruturas burocráticas rígidas
- Sistemas onde “seguir ordens” é valorizado acima da reflexão
Sempre que:
- A autoridade é percebida como legítima
- A responsabilidade é fragmentada
- A obediência é normalizada
👉 a Mente Primordial tende a assumir o controle.
O erro recorrente: moralizar a obediência
Assim como nos casos de Stanford e Universo 25, há um erro frequente na leitura de Milgram:
transformar o fenômeno em julgamento moral individual.
A Mente Primordial propõe outra leitura:
não são pessoas más obedecendo,
são sistemas antigos respondendo a sinais de autoridade.
Isso não elimina responsabilidade ética, mas desloca o foco do caráter para a estrutura.
Implicações clínicas e psicológicas
Na clínica, os efeitos da obediência automática aparecem como:
- Dificuldade em dizer “não”
- Submissão crônica a figuras de autoridade
- Culpa excessiva após obedecer
- Confusão entre dever e desejo
- Perda progressiva de autonomia
Compreender a obediência pela lente da Mente Primordial permite:
- Reduzir autocrítica excessiva
- Trabalhar reconstrução da agência
- Diferenciar autoridade externa de autoridade interna
- Fortalecer limites sem negar a natureza humana
Conclusão
O Experimento de Milgram não revela a crueldade humana.
Ele revela a potência da autoridade sobre uma mente moldada para sobreviver em hierarquias.
A Mente Primordial não desapareceu com a civilização.
Ela continua operando sob a superfície da racionalidade, pronta para responder a sinais de poder e comando.
Compreender isso não nos torna menos responsáveis.
Nos torna mais conscientes dos mecanismos que moldam nossas escolhas quando acreditamos estar apenas “seguindo ordens”.
Referências e aprofundamentos
🔗 Experimento original de Milgram (Fonte histórica)
👉 https://www.simplypsychology.org/milgram.html
🔗 Aprofunde-se na Teoria da Mente Primordial
👉 https://pedroajala.com/a-mente-primordial/
📄 Artigo teórico em inglês (DOI – Mente Primordial)
👉 https://doi.org/10.5281/zenodo.17925210
Conteúdo Institucional
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Pedro Ajala — Psicanalista Integrativo & Terapeuta Comportamental
CBO: 2515-50 / 3221-25
International Independent Theoretical Researcher — ORCID iD: 0009-0009-6551-4292
Integro psicanálise, neurociência cognitiva aplicada, análise do comportamento e estudos sobre a Mente Primordial para compreender a complexidade da experiência humana. Meu trabalho une investigação profunda dos processos inconscientes a métodos baseados em evidências para reorganizar hábitos, emoções e padrões relacionais.
Atuo com foco em transformação genuína, autonomia emocional e compreensão científica dos mecanismos que moldam o sofrimento e o desenvolvimento humano.
— Pedro Ajala, Psicanálise Integrativa & Neurociência Cognitiva Aplicada
